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Entrevista | Luiz Sacoman fala sobre o retorno da Cavalo Vapor e os desafios do rock autoral na atualidade

Guitarrista e fundador do grupo analisa a retomada da banda, a transformação da indústria musical e os caminhos para manter identidade artística em um cenário dominado pelo consumo digital.


(foto/reprodução do instagram)
(foto/reprodução do instagram)

O retorno da banda Cavalo Vapor marca mais do que uma reunião musical. Representa a retomada de um projeto artístico que dialoga com a história do rock autoral brasileiro e, ao mesmo tempo, busca espaço em um cenário musical profundamente transformado.


À frente do reencontro está o guitarrista Luiz Sacoman, fundador do grupo e principal articulador dessa nova fase. Para o músico, a retomada surge como consequência natural de um vínculo que nunca deixou de existir.


Desde sua formação, divulgando o famoso álbum de estreia Greatest Little Hits, em 1997, a banda construiu uma trajetória baseada na busca por linguagem própria dentro do rock nacional. Em um período marcado por intensas transformações culturais, mais do que construir repertório, o grupo apostou na combinação entre expressão instrumental e composições autorais como pilares de sua identidade.



1- O retorno do Cavalor Vapor acontece em um momento de transformações profundas na indústria musical. Que fatores artísticos e estratégicos motivaram essa retomada?


🔸Sempre soubemos que havia uma grande procura por nosso álbum lançado em 1997 em cd, em uma tiragem limitado a 1.000 cópias. Nosso cd, fora de catálogo, estava sendo vendido (usado) por até R$1.000,00, como nos contou o Carlão da Animal Records. Foi então que a gravadora Classic Metal nos fez uma proposta para relançamento do álbum, em cd e na inédita versão Vinil. Com isso foi inevitável pensar em uma nova formação.


2- Como você avalia a relevância histórica da banda dentro do cenário do rock e da música autoral brasileira?


🔸Fizemos um trabalho que foi considerado pela crítica especializada como um dos melhores álbuns do Hard Rock cantado em português de todos os tempos. Ficamos muito felizes com isso, mas a época não era muito propícia. Por falta de verba, sem um selo na época, demoramos muito para lançar o álbum, que saiu em uma época onde bandas como Nirvana dominavam a cena, deixando o Hard Rock como um estilo em baixa. Entretanto, acreditamos que o álbum do Cavalo Vapor seja atemporal, e a banda, por não ter tido álbum no tempo certo, nunca conseguiu o reconhecimento proporcional.


3- O que mudou na forma de produzir e distribuir música desde o período inicial do Cavalo Vapor até os dias atuais?


🔸Começamos em 1986, época onde os cartazes colados nas lojas da Galeria do Rock eram nosso único canal de divulgação. Alguns zines e o início das revistas especializadas, e nossos guerreiros com programas em rádio como Walcyr e Vitão Bonesso também foram muito importantes. Alguns programas de TV como o Boca Livre e o Gastão com o Fúria Metal da MTV também faziam a diferença. Daniel e o Demo MTV também, mas com o advento da internet e das plataformas, o céu é o limite em relação ao alcance possível.


4- Esse retorno dialoga mais com a preservação da identidade original do grupo ou com a necessidade de atualização estética e sonora?


🔸O álbum foi relançado na íntegra, somente remasterizado e com 2 faixas, gravadas à época como bônus foram remixadas nos estúdios Family Music e Mosh, pelo produtor Nando Vieira.


5- De que maneira a maturidade artística influencia as decisões musicais e conceituais dessa nova fase?


🔸Ao vivo tentamos manter a essência, com mais detalhes nos backing vocals e na precisão de execução que nos anos 80 e 90, quando estávamos na ativa. Mas o resultado é muito semelhante, no fim das contas.



6- A banda retorna em um momento em que o mercado privilegia algoritmos e consumo rápido. Como manter uma proposta artística consistente nesse contexto?


🔸Acreditamos que existe um nicho que procura “verdade” e é isso que procuramos passar. Timbres, execução humana, música com alma.


7- Existe uma preocupação em apresentar o Cavalo Vapor para novas gerações ou o foco principal ainda é o público que acompanhou a trajetória original?


🔸Muitas pessoas estão conhecendo o Cavalo Vapor nos últimos tempos e é muito gratificante ver que o som agrada também as novas gerações.



8- Como você enxerga o espaço atual para o rock autoral brasileiro dentro do circuito de shows e festivais?


🔸Acreditamos que o hard rock em português nunca teve o espaço que merece. Acreditamos que ao termos um novo álbum, teremos mais oportunidades e convites para participarmos de festivais e, adoramos a ideia. A banda quase não se apresentou a grandes públicos, nem fora do estado de São Paulo.


9- A guitarra sempre teve papel marcante na identidade da banda. Houve mudanças na sua abordagem instrumental ao longo dos anos?


🔸Sou o tipo old school em timbres, com execução técnica, talvez uma fórmula também atemporal. Com influência de blues, indiretamente pelo trabalho de Gary Moore, Michael Schenker, com uma pitada de Malmsteen e Van Halen. Talvez sejam referências antigas, mas nunca velhas.


10- O repertório do retorno busca revisitar o passado ou propor uma releitura crítica da própria história da banda?


🔸Fizemos poucos shows, com foco no álbum. Ainda não incluímos versões de músicas que gostamos ou novas composições. O álbum ainda tem esse frescor de novidade pra muita gente.



11- Quais foram os maiores desafios estruturais e artísticos enfrentados para viabilizar essa retomada?


🔸Como o Nando Fernandes estava com muitos compromissos, em especial com a incrível banda Sinistra, tivemos que fazer uma audição on-line para encontrar o novo vocal. Guilherme Campos tinha toda a linguagem e é um cantor incrível e ocupou o posto com maestria.

Na verdade somente eu Luiz e o Delfin Rolán teclados somos os originais do álbum. Então o desafio de montar a banda, baixo, bateria, ensaios, linguagem, isso tudo foi o grande desafio.


12- O reencontro com o palco provoca uma leitura nostálgica ou representa uma reconstrução criativa do grupo?


🔸Certamente uma reconstrução. Queremos que todos imprimam seu próprio estilo de alguma forma.


13- Como você analisa o impacto cultural do Cavalo Vapor hoje, considerando o cenário musical contemporâneo?


🔸Acredito que o rock orientado a adultos, AOR, tem uma carência. Letras inteligentes, divertidas, sons com requinte e elaborados. Tudo isso torna o CV relevante e destaca o trabalho no mar de opções.




14- Existe a intenção de registrar essa nova fase em lançamentos fonográficos ou projetos audiovisuais que documentem o retorno?


🔸Infelizmente fizemos um show incrível em janeiro de 2025 mas o técnico de som da casa “perdeu” o arquivo. Temos o material em vídeo, mas impossível de editar com o som das câmeras. Talvez no futuro podemos fazer alguns registros, mas queremos focar no futuro agora.


15- Que contribuição você acredita que essa volta pode oferecer ao debate sobre longevidade artística e resistência cultural na música brasileira?


🔸A persistência é marca registrada de bandas no Brasil. Queremos manter essa tradição, sem seguir tendências, fazendo o som que sabemos e amamos fazer.


16- O futuro da banda envolve novos lançamentos, turnês ou expansão para outros formatos artísticos?


🔸Sim. A ideia é termos matéria ainda em 2026 para um novo lançamento para no máximo 2027, mais participação em festivais e shows no circuito cultural pelo Brasil.



🌐 Redes sociais e plataformas oficiais:

Spotify:


Vocal: Guilherme Campos

Baixo: Fefilus Maximus

Guitarra: Luiz Sacoman

Teclado: Delfin Rolán

Bateria: Douglas Las Casas




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